quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Mon Pére, Marguerite e les Livres d'Histoires Magniffiques





J'ARRIVE!!!!

Esse trovão que transpassa as paredes da minha casa é meu pai. 

Ele é enorme, o maior homem do mundo. Sua voz preenche o lugar onde moramos e enche meu coração.  Mesmo que eu não o veja, eu o escuto, em sua presença constante nos meus dias. E assim sei que estou seguro. 




A quem o chamar, ele atende. De onde estiver. Mas o faz de formas diferentes. Com minha mãe, há o sorriso largo, a voz forte. Ele fala com ela em gestos. Ele a suspende no ar enquanto afirma já haver ido ao mercado. Ele a beija repetidas vezes quando ela nos chama para almoçar. Ele gesticula fortemente quando ela o acusa de estar enrolando. Ele a abraça calmamente nos finais de tarde, enquanto observa a mim e a Margueritte no olhar.


Com Margueritte, a voz é sempre suave, como os gestos. Ele diz que ela é tão delicada que poderia quebrá-la muito facilmente. Ele cuida dela como das plantas na horta, dos pássaros no jardim e - é, também - de mim. 

Eu já contei de Margueritte? Ela é minha avó. Non, não minha avó, minha avó. Não é mãe do meu pai. Mas mora conosco e é minha avó. Eu a chamo de Titte e dela lembro desde sempre. Ela é a pessoa mais velha do mundo. Minha mãe ri quando eu digo isso e me responde que não. Bom, ela é a pessoa mais velha que conheço. 


E ela é minha amiga. No jardim, eu brinco e ela senta ao meu lado. Conversamos sobre tudo. E ela me conta histórias. São tantas e tão diferentes, elas nunca acabam. Há índios, terras distantes, mares sem fim. Homens corajosos, mulheres fortes. Cavalos, peixes, dragões... 

Todas as histórias estão na cabeça de Titte. Ela não lê mais, quase não enxerga - embora eu duvide disso, porque ela vê tudo que eu faço, principalmente se achar que está errado. Mesmo assim, na nossa casa, há livros por toda parte, e todos são dela. Quando minha mãe, na correria, tropeça neles, é uma trovoada. Não há espaço para gente nesta casa! E todos rimos, porque há espaço, e muito. 



Há muito dicionários também. Por toda parte. Eu não sei ler ainda, eles não fazem sentido para mim. Um livro só com palavras? O que isso tem de diferente? Todos os livros não possuem palavras? Mas meu pai diz que esse é diferente. Buscamos o que são as palavras e o que elas significam ali. Ele só me diz para não procurar por tomate, porque está tudo errado... Tomate-uva, pois sim! Há o tomate cereja, o tomate caqui... Ele brada enquanto morde um de seus sanduíches imensos. Mesmo assim, ele continua a ter um  dicionário sempre perto. 

Eu gostaria de saber das palavras, porque muitas eu não conheço. Assim aconteceu um dia: ao sair correndo da casa quando o chamaram na porta, minha mãe riu e disse que ele é um dínamo. Isso eu não sei o que é. Outras coisas, eu sei. As pessoas dizem que eu falo palavras difíceis para a minha idade, que sou inteligente. Disso eu não sei... eu falo o que eu penso. O que eu ouço nas histórias de Titte.



Nas tardes, antes da noite chegar, meu pai, seja que dia for, senta ao lado de Margueritte e lê para ela. Eu fico perto, sempre. Ouço a voz do meu pai, mais suave, chegar a outros lugares, contar de outras pessoas, dizer de sentimentos que eu até então não conhecia.  E eu viajo ali, perto dos dois. Minha mãe chega perto, antes do jantar, e me põe no seu colo. Seu abraço me alcança todo. Meu pai costuma parar de ler, nesse momento, olhar para nós dois, e dizer: "Sempre se retorna ao túmulo da mãe para uivar como um cão abandonado..."

Eu não sei o que isso quer dizer, mas minha mãe faz uma careta para ele e me abraça mais forte. 



Abraços também não faltam em casa. Tropeçamos neles como nos livros. Em cada momento do dia, uma história, um abraço e a voz retumbante - que já vi no dicionário - do meu pai, povoando os meus dias. Dias com meu pai, minha mãe e Margueritte.




 Minhas Tardes com Margueritte (La Tête en Friche. Jean Becker, França, 2010) foi um filme a que eu resisti chegar. A figura de Gérard Depardieu, infelizmente, não tem me chamado mais ao cinema como antes. Mas ao ler sobre o filme no imdb.com, resolvi fazer parte das tardes de Margueritte. Entrei no filme às 17h15 e nele estou até hoje. Encantamento e simplicidade me encontraram ali. Uma parte da minha vida também. Margueritte, uma senhora delicada e inteligente, me trouxe uma pessoa amada, minha Tia Chris, que, non, não é minha tia, assim... ela é, para mim, uma mãe de coração. Ela e Margueritte dividem a degeneração na mácula que as impede de estar com os livros, que amam tanto. 

Há tanto mais nesta história, mas eu quis mantê-la simples, como é o filme. Espero não tê-la deixado superficial... Ao final de Minhas Tardes com Margueritte, imaginei como seria a vida de pessoas tão especiais, em uma vila minúscula na França, em uma casa que havia sido sinônimo de tristeza para Germain, mas que, agora, adquiria o significado de uma nova vida feliz. 

Emoções são fundamentais na existência. E a empatia que elas permitem é essencial à alma. Ao final do filme, esperando os créditos passarem, com o coração emocionado e os olhos molhados, uma das moças da limpeza, um pouco mais velha que eu, parou à minha frente e perguntou: gostou, né? Eu disse que sim, e contei a ela o reconhecimento que tive em Margueritte. A resposta? Ela foi mais ou menos assim: Olha, se eu colocasse uma caixa d´água aqui todos os dias, todos os dias ela estaria cheia das lágrimas de todos que vêm esse filme. Eu o vi há um mês. Um mês? É, é isso. E me emociono até hoje

As pessoas são como as histórias... é só deixar que elas chegam e nos cativam

sábado, 14 de janeiro de 2012

Take this (your evil bitch) + Double Winners + Happy Endings do exist!!! = The Final Cut

Eric olhou ao seu redor. A plateia lotada. A excitação pelo jogo inacreditável que presenciaram. A música no estádio. As conversas. A atenção na sua figura.

Sentado sozinho, o suor ainda escorria pelo seu rosto. Sozinho poderia parecer uma figura de expressão, já que a quadra estava lotada de pessoas, que se movimentavam para manter o show running. Mas naquele momento ele estava só. Tão só - e tão vazio - quanto estivera por um longo tempo. 




Olhou para o céu e se fixou em seu azul. O barulho ao seu redor se tornou distante. As pessoas em correria ficaram difusas. O vento que lhe dera tanto trabalho nas últimas três horas era o que o impedia de desmanchar em pedaços. Ali, sentado, ele permanecia inteiro em sua armadura de indiferença. 

Uma batalha de anos se encerrava naquele instante. E ele estava finalmente livre.

Yay.

Com a vitória no Us Open, conquistada há minutos numa partida longa e atrapalhada pelo vento forte em NY, Eric Oberdorf se tornava o número 1 no ranking da ATP. 

Número 1. O objetivo de Eric quando assumira o tênis como profissão. Entre tudo o que poderia ter escolhido para se tornar, ele presumira que ser um jogador de tênis era apenas uma questão de controle, domínio sobre si mesmo, de distância da fraqueza que significava, para ele, assumir algo como centro absoluto da própria existência. Ao escolher o tênis como profissão, ele se decidira a não se deixar dominar. Autocontrole, esforço, disciplina ele tinha. Mas nunca,nunca, se tornaria obcecado pelo jogo.

Que ironia.



Ele se casara com a obsessão. Ele a amara profundamente e, sim, a deixara destruí-lo. Quebrara em pedaços, os mesmos que o vento conservava unidos agora. Na sua primeira final de um Grand Slam, nesta mesma quadra, ele se viu sucumbir a tudo que quisera evitar. Suas certezas, sua confiança, seu esforço, treino e disciplina haviam sucumbido também. Assim como o amor que lutara para preservar.

Naquela época, no metrô saindo de Queens, a caminho da casa dos pais, somente com o seu passaporte no bolso, Eric mantivera o olhar fixo na paisagem murada que via pela janela do trem. Vários trailers se projetaram nas paredes do túnel. Imagens de vidas que ele poderia ter tido e agora não eram mais possíveis. Visões de Willy ao seu lado na sua primeira vitória de Grand Slam. Willy vitoriosa juntamente com ele. Willy grávida do primeiro filho dos dois. Willy feliz por suas conquistas. Willy apoiando-o e amando-o. Willy Willy Willy.



Outras imagens surgiram diante da impossibilidade das anteriores. Willy recebendo-o com rancor e ironia sempre que ele vencia uma partida. Willy tornando-se cada vez mais competitiva, amarga e distante. Willy contando a ele sobre o filho que esperava... Não, essas imagens ele se recusava a olhar.

Outras surgiram, dessa vez da memória. Willy num jogo contra Randy, na primeira vez em que Eric a vira ao vivo. Willy apresentando-o ao seu mundo e deixando-o entrar nele. Willy contra a rede de tênis na primeira vez em que ficaram juntos. Willy casando com ele em seu uniforme de tênis como vestido de noiva. 

Willy Willy Willy. 

Wilhelm. 


Mantido pela força do vento, Eric fechou os olhos e lembrou desse momento no metrô. Do instante em que decidiu desviar seu olhar da tela indesejada das memórias e olhou para a frente. Foi ali que resolveu mudar o curso do seu destino para a casa dos pais. Trocou de trem e se dirigiu para o aeroporto. Ali, Eric Oberdorf sumira.

Longe dos circuitos de tênis, ele desaparecera em outros cenários. Do aeroporto avisara aos pais que iria permanecer fora de contato por algum tempo. Ao seu agente, não dera satisfações, apenas pagara a multa pelo rompimento do contrato. Para Willy, nem uma palavra. Ele já havia dado a ela tudo o que podia e tinha. Esvaziado, ele partira.




Três anos e ele ainda se encontrava vazio. E preso a Willy. O desprezo por si mesmo quase o destruíra definitivamente. Até que, numa rua deserta em Tokio, resolvera mudar novamente a sua rota para, dessa vez, tentar encerrar uma história que não o deixava. Assim, retornara ao circuito do tênis.

Não fora fácil. Na verdade, fora inacreditavelmente mais difícil que da primeira vez. Estava realmente sozinho. Isso se traduzia da seguinte forma: estava sem Willy. O peso dessa tradução lhe trazia mais desprezo.

Mas ele conseguira. Do zero novamente, do fundo do ranking novamente, ele gradativamente conquistara mais posições até alcançar o seu primeiro Grand Slam na Austrália. Do ponto inicial até este momento, cercado pela balbúrdia em Arthur Ashe, foram mais três anos. Era quase um milagre que ele tivesse conseguido. 




Agora ele estava livre. Pretendia anunciar sua aposentadoria do tênis na coletiva de imprensa depois da premiação. Era hora de buscar outro rumo,  escolher outras rotas. E ser realmente feliz com elas (o que era isso, afinal?), não mais preso a uma obsessão que não era sua. E nunca havia sido.

Ele só esperava que concretizar a ideia fosse possível.

Willy se suicidara há duas noites, momentos após Eric ganhar a semifinal que o levaria à sua primeira final nos Estados Unidos e à liderança do ranking. Em casa, sozinha, ela tomara uma superdose de antidepressivos. Não queria pensar assim, mas Eric não conseguia evitar de imaginar como ela cronometrara que a encontrassem sem vida a tempo de  a notícia chegar a ele antes da final. E assim acontecera, nesta manhã. 

Congrats, Wilhelm.

Mas Willy não previra que o vazio que ela deixara ainda permanecia nele. No vácuo, a sua morte não encontrara ressonância e ele entrara na quadra focado no seu objetivo. As perguntas viriam, e ele responderia a todas elas. Mais uma grande manchete para os jornais. E ainda assim não havia ressonância em seu coração.

Em meio a 23 mil vozes, uma risada chamou a atenção de Eric. Um som em meio à cacofonia que o rodeava. Ele saiu de sua imobilidade e procurou sua origem. Eric sorriu diante da cena: uma ruiva sardenta parecia contar em gestos o match point para a amiga ao seu lado. Ele conseguia reconhecer a reprodução do seu ponto que já se tornava emblemático. O entusiasmo da ruiva era maior do que a partida fora para Eric. Ele pensou em qual seria a reação da red hair quando soubesse do seu afastamento. 

Desviando-se do entusiasmo, ele olhou para a frente e aguardou que a premiação começasse. Queria passar todas as instâncias logo - a premiação, as fotos, os cumprimentos, as entrevistas - e correr para o metrô. Estava impaciente para começar uma nova vida - livre e feliz (seria ilusão?),  longe das competições (seria possível?). 

 ***

Juliane não acreditava na tabaquice de Amélie. Perder o match point da partida mais esperada de suas vidas era  inacreditável e muito típico da amiga, na verdade. Mas agora ela o contava o mais fielmente possível, enquanto esperavam a premiação. 



Estar no Arthur Ashe para uma final com Eric Oberdorf era um sonho que parecia impossível até o ano passado. Ela e Amélie, irmãs de alma, amigas de sempre, aventureiras de viagens pelo mundo e pelas histórias que amavam, dividiam também uma paixão pelo tênis. Nem sempre fora assim, mas um dia se viram torcendo por Roger Federer e comentando suas partidas pelo telefone, cada uma em sua cidade. Quando uma não via o jogo, a outra contava, por mensagens de celular, todos os detalhes. 

Assim, um projeto surgira há uns anos: fazerem juntas o circuito completo dos quatro Grand Slams. Não necessariamente no mesmo ano,  infelizmente. Austrália, França, Inglaterra e US  juntos não cabiam no tempo nem no orçamento de cada uma. 

O primeiro havia sido Roland Garros, numa sempre bem-vinda viagem à França. O acordo incluía que cada uma escolhesse para a outra um memento do torneio. Quanto mais inegavelmente turístico, melhor. E assim elas se divertiam com suas escolhas inusitadas, como se divertiam com os detalhes e confusões de cada viagem. A Austrália viera dois anos depois, o trecho mais caro e distante para as duas, que, por isso, resolveram aproveitar em dobro. Wimbledon fora emocionante e intenso, e as duas seguiram viagem para a Escócia com o coração realizado de participarem do torneio mais tradicional de tênis numa cidade em que as duas se sentiam em casa. 




Mas como planejamentos são bastante complicados, na vez do US Open uma desilusão as tirou do caminho. Outra tradição das amigas era escolher um jogador do coração para cada torneio de que participassem. Federer na França fora uma escolha de risco, mas que se mostrara feliz quando ele levou Rolland Garros numa virada inesperada contra Rafael Nadal. Na Austrália, a vez foi de Janko Tipsarevic, que as amigas apelidaram de "o oclinhos" e que ganhou seu primeiro Grand Slam diante da torcida alucinada das duas. Em Wimbledon, viram a primeira partida de quem seria seu jogador preferido por um tempo, Eric Oberdorf. Com ele, esqueceram de eleger um possível vencedor. Apesar de ser um jogador ainda em ascensão, a fidelidade de Amélie e Julianne foi instantânea e absoluta. Assim, quando ele chegou a sua primeira final justamente no US Open, o único torneio que ainda não haviam visitado, a decisão foi ver o que seria uma final certeira no ano seguinte.




Mas, então, Oberdorf havia sumido do mapa. 

No ano seguinte, nada de Estados Unidos para as amigas. Julianne recebeu uma bolsa para o seu doutorado em Paris, um antigo sonho seu. Amélie conheceu o dono de um pub na Irlanda e por lá ficou, apaixonada, por um tempo. O último Grand Slam da temporada ficou esquecido.

No segundo ano, ainda envolvida com seu doutorado, Julianne convidou Amélie para ficar com ela em Paris. Quem sabe assim a amiga curaria a imensa dor na alma depois de deixar Patrick na Irlanda para voltar para casa. 




Nos anos seguintes, os protagonistas na vida das amigas foram outros que não o tênis. Julianne casou, separou-se e voltou a estudar - uma síntese em palavras que não descreve toda a intensidade do período... Amélie vivia na confusão da sua vida profissional, sem ver muito sentido no lugar e na forma como vivia. Seu coração ainda estava com Patrick e a Irlanda, mas seus pés a conduziam para outras direções. Vidas diferentes que, sempre sempre, se encontravam nas conversas constantes das duas, que se ajudavam e apoiavam. E, de vez em quando, ainda comentavam as partidas de tênis que assistiam na TV.

Assim foi até que, um ano, Julianne ligou no meio da tarde para Amélie com a notícia de que Eric Oberdorf havia voltado ao tênis e já ocupava o 34º lugar no ranking da ATP. Como assim? Você sabia disso? Como ele chegou até esse ponto sem percebermos que ele havia voltado? Inacreditável. Dessa forma, quando Eric continuou a avançar no ranking e a chegar às finais dos grandes torneiros, veio a lembrança de que US Open ainda não fazia parte da jornada das amigas. E um novo projeto se formou.

Sim, tudo isso, uma saga épica e a criatura escolhe o pior momento para ir ao banheiro,..! 



Na confusão da saída do estádio, Julianne e Amélie esqueceram da coletiva. Pararam numa barraquinha de cachorro quente, que comeram sentadas no meio fio. Ali ficaram por bastante tempo, vendo o movimento, comemorando a vitória de Eric e a realização de um sonho de forma adequada - afinal, desde o início a intenção era de estar em Flushing Meadows com ele. No encanto e diversão do momento, elas quase não ouviram uma voz que chamava porAmélie.

Evento inacreditável número 3000 na vida das duas: Patrick se dirigia a elas correndo, com o nome de Amélie ressoando ao seu redor. Mas essa é outra história... e é muito boa. Basta dizer aqui que Julianne dirigiu-se ao metrô sozinha, feliz que a amiga estava por enfrentar uma situação que pesara em seu coração por anos. Bom, assim ela esperava. Com o próprio peito bastante leve, entrou no trem. Sentou-se. Demorou um pouco para se ajeitar e finalmente olhar para quem estava à sua frente no banco.

Ho ho ho.

Thanks God Eric Oberdorf não percebeu o seu olhar fixo. Ele encarava,  também fixamente, as paredes que pareciam passar pelo trem. Seu olhar era atento, e Julianne pensou como ele parecia ver um filme. Era como se imagens se projetassem ali e prendessem a atenção do jogador. E o encontro era tão surreal - mais ainda que tudo que havia acontecido - que ela não se questionou do porquê de o vencedor do US Open estar no metrô nem duas horas após sua partida. 

Caramba, ela o estava encarando. E agora? Olhar para onde? Olhou para fora da janela também, quem sabe teria acesso ao que chamava tanto a atenção do tenista. E essa lhe parecia a única solução para não perfurar Oberdorf com seu olhar. E, assim, para o espectador da cena, uma estilosa ruiva sardenta e um homem magro e alto, vestido em roupas esportivas, um de frente para o outro, encaravam a janela do trem. Ficaram assim todo o percurso.



Na última parada antes do ponto em que Eric deveria descer - a estação de Julianne já havia passado há tempos sem que ela sequer tivesse percebido -, uma cena chamou a atenção dos dois participantes dos filmes invisíveis: um menino de aproximadamente 10 anos repetia, para o pai, o incrível ponto final de Eric em gestos tão entusiasmados quanto os de Julianne para Amélie. 

O reconhecimento foi imediato. Em Eric, surgiu um sorriso, que encerrava para ele a amargura que havia sido o tênis até então. Para Julianne, veio a risada alta e intensa, que ressoou na lembrança de Oberdorf. Finalmente desviando o olhar da janela, ele olhou para Julianne ao mesmo tempo em que ela dirigia seu olhar para ele. O sorriso foi mútuo. Assim como o Reconhecimento. O Encontro. O Acolhimento.

***

Int. Metrô de Nova York. Cercados de pessoas, um homem e uma mulher, sentados perto da janela e de frente um ao outro, se olham, sorrindo. O narrador conclui, então, sua história:

E, nos olhos um do outro, o trailer de novos filmes surgiram. Cenas promissoras se criaram. Cenas de uma vida nova. Feliz. Repleta. The final cut.







Double Fault, de Lionel Shriver, acabou comigo. Eu li, num comentário feito no Amazon, que  o livro é uma ótima discussão sobre a competitividade entre o casal. Eu discordo. Para mim, ele foi além da competição entre dois jogadores de tênis que se casam e das dificuldades de lidar com isso. A história de Eric e Willy me levou aos limites da crueldade que uma pessoa pode alcançar com outra que diz amar. As últimas linhas do livro são de massacrar o coração e deixar descrente qualquer um.

O livro foi uma indicação da minha sis de alma, Kal, que acho parecidíssima em jeito Julianne Moore. Nós duas nos abalamos muito com o livro. Outro ponto em comum foi o tênis, que descobrimos ser outra paixão compartilhada, além dos livros, filmes, viagens... E essa reticência é realmente longa, porque são muitas as afinidades. Roger Federer é mais um denominador em comum na nossa história também, assim como Janko Tipsarevic, que usa óculos para jogar e tem tatuado, entre outras tatoos, uma frase de Dostoyevsky em japonês (!) : "Beauty will save the world" : )

Eu nunca fui muito consciente do quanto gostava de tênis até uns três ou quatro anos atrás, quando comecei a acompanhar os torneios de forma mais constante. A primeira lembrança que tenho desse entusiasmo com o jogo foi o de uma partida que assisti - não sei se aos 17 ou 18 anos. Era o Australian Open e a única lembrança que me ficou foi o nome de um dos jogadores, Pat Cash. No meio da partida, minha mãe cansou do barulho da TV na madrugada e a desligou. Eu estava literalmente grudada na tela e no jogo, e fiquei desconsolada. Mas meu dispositivo cerebral não me ajudou a procurar um jornal para saber do resultado. Sem internet na época, eu só fui descobrir o resultado final quando assisti aos extras do filme Wimbledon (Richard Loncraine, UK/França, 2004), em que Pat Cash era consultor. Ali foi dito que ele nunca ganhara uma final na Austrália. Agora, ao procurar na internet, não sei se assisti à final de 87 ou 88 - das duas Cash participou, e as duas ele perde. De Wimbledon, o filme, eu gosto demais; ele foi um dos indicadores de que o meu coração realmente pulsa mais forte com o tênis - tanto que eu até dou umas espiadas na novela das 18h da Globo, Vida da Gente, coisa que não fazia há mais de 14 anos...

Esta história era um grande dividendo com 2011, já que ela deveria ter aparecido aqui logo após o término do livro. Mas não consegui. Além do que pensar um futuro para Eric é de uma responsabilidade, para mim, imensa. Estou ainda para dizer de uma história que tenha me abalado tanto. A ideia de mais de uma história no mesmo post veio de quantos detalhes se envolveram na intensidade da história para mim. 


Assistindo hoje ao episódio 11 da oitava temporada de Grey's Anatomy, uma série que acompanho desde o seu início e que me comove - e move - muito, uma frase me trouxe a esta história e eu a acrescentei aqui. Numa cirurgia de separação de gêmeos siameses, após várias etapas, o cirurgião diz: and now, the final cut. Este é também o nome de um álbum do Pink Floyd que me comovia muito na adolescência. Esta semana eu me defrontei com um final cut, e fiquei muito feliz que ele finalmente tivesse ocorrido... E como esse era meu desejo para Eric... aqui está ele.

Vale lembrar, por fim, que Double Fault está também no Viagens de Amélie...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Girassóis e Margaridas

Neste terceiro e último relato dos reencontros maravilhosos em Londres, algumas "coincidências" me levaram a uma pessoa muito, muito amada e a uma época preciosa. 



Acordei num dia especialmente cinzento no verão londrino - essa história ocorreu já há alguns meses, a narradora está de fato atrasada... Shorts e camisetas de lado, tirei a calça do fundo da mala, embrulhei-me num casaco e fui caminhar. Assim, sozinha, de bobeira. Caminhando pelas ruas, admirando as vitrines, deixando registradas na memória as diferentes pessoas que passavam pelo meu caminho. Andando assim, um Flâneur na multidão, descobri uma loja de trilhas sonoras de cinema. Entrei e outra viagem começou.

Ao pisar no tapete alaranjado, fui transportada aos meus doze anos... Do autofalante da loja, a voz de Cat Stevens ressoava no meu coração. 

Trouble oh, trouble set me free. I have seen your face and it's too much, too much for me. Trouble, oh , trouble can't you see? You're eating my heart away and there's nothing much left of me.

I have drunk you wine.
You have made yours worth mine
so won't you be fair?
So won't you be fair?

I don't want no more of you, so won't you be kind to me, so let me go where, I want to go there. Trouble, Oh, trouble move away. I have seen your face, and It's to much for me today. Trouble, oh, trouble can't you see? You have made me a wreck, now won't you leave me in my misery?

Como que acordando de um sonho, eu olhei ao meu redor. Que figura eu fazia ali, estática na entrada de uma loja, mergulhada em lembranças e emoções de vivências passadas. Disfarcei-me em uma cliente normal olhando as prateleiras e caminhei por aquele espaço ainda em imersa em devaneio.


Trouble tem uma letra forte, triste... mas ela me enche de alegria. E de esperança. E força. Vai entender? As palavras e sons da música me levam a uma experiência preciosa e amada, e nele eu mergulhei. O que havia na loja que me chamara tanto a atenção a ponto de nela entrar? Não sei... Dela saí ainda com Trouble e resolvi sentar em algum lugar para deixar o coração assentar no peito.

Encostada na janela de um café, agora eu estava na vitrine: as pessoas que passavam correndo na rua, atrasadas para o seu destino e inconformadas com o dia frio que invadiu seu verão, se permitiam um olhar de inveja para quem estava sentado confortavelmente em poltronas gordas com suas xícaras fumegantes na mão.   Eu era uma dessas pessoas, sentada, confortável. Eu estava, no entanto, em outros lugares. 


E o meu olhar? Ah, o meu olhar ultrapassava essa barreira humana e se fixava na imagem no outro lado da rua. Uma explosão de girassóis invadia a paisagem cinzenta. De todos os tamanhos, maravilhosos e intensos, eles ocupavam, em foto, toda uma parede entre duas lojas. Brilhantes, eles me fizeram mergulhar mais profundamente nas lembranças.

Nesse momento eu era só devaneio. Paguei o café, me confundi novamente com o turbilhão de pessoas e reassumi meu andar de Flanêur. Sem  objetivo conhecido, sem identidade.

E, assim, o meu destino - inconsciente, mas determinado desde o início da minha jornada nesse dia inusitado - se concretizou à minha frente. Parei na entrada de um teatro pequeno, espremido entre uma livraria enorme e um restaurante indiano. Na porta, um rosto conhecido: Harold and The Banjos, dizia o cartaz. Trouble, os girassóis... migalhas de pão que me conduziam aonde eu tinha de chegar. E ali estava eu.


Um cabeludo colorido e muito alto abriu a porta do teatro apressado. Parou um instante, percebeu a estátua humana de olhos vidrados no cartaz e perguntou se eu queria entrar. E ele o fez com um grande e brilhante sorriso de girassol. Eu acenei que sim e o segui para o calor e colorido da sala de espetáculos.

Uma banda se posicionava no palco. Algumas pessoas se espalhavam pelo teatro. Entrávamos na sala de um ponto mais alto. Ao descer pelo corredor entre as fileiras de cadeiras de veludo verde desbotado, eu saía do plano geral e ia, aos poucos, compondo também o cenário. Quase em frente ao palco, o cabeludo colorido muito alto parou, sorriu novamente - girassol!!! - e apontou para uma figura solitária sentada ao centro. Virou-se e me deixou sozinha para continuar meu caminho.


Eu me aproximei de Harold com a delicadeza que minha emoção exigia. Sentei ao sei lado, em silêncio. Meu olhar se fixou no palco por vários minutos até que, ainda com muito cuidado, virei a cabeça. Nós nos olhamos ao mesmo tempo. Sorrimos também ao mesmo tempo, e lágrimas chegaram aos meus olhos.

Os sons do nosso primeiro encontro surgiram novamente para mim: 

Trouble, oh, trouble
move from me
I have paid my debt
now won't you leave me in my misery.
Trouble, oh, trouble
please be kind.
I don't want no fight
and I haven't got a lot of time.

Quanto tempo eu não o via! Tantos sinais no dia e eu mal imaginava que Harold estaria no final do arco-íris me esperando. Envelhecido, o cabelo grisalho, rugas de vários risos ao redor dos olhos, ele, no entanto, me parecia o mesmo. Os mesmos olhos arregalados de espanto diante da vida - que continua a surpreendê-lo. O seu sorriso de margaridas... Ele segurou minha mão, a apertou com carinho e encostou-a no coração. Com um beijo, ele a colocou no meu colo, levantou e se juntou à sua banda para o ensaio.


Eu permaneci ali, com ele, como em todos esses anos em que não nos vimos. E ali iria permanecer por várias horas. Esquisito falar em horas, porque o tempo era outro ali. Suspenso em sentimentos e lembranças, os minutos não eram lineares.

Harold pegou seu banjo, acenou para a banda, sorriu novamente para mim e disse em música as palavras da minha alegria:

Well, if you want to sing out, sing out
And if you want to be free, be free
'Cause there's a million things to be
You know that there are


Quando me perguntam quais filmes são os meu favoritos, eu sempre fico em confusão. É impossível para mim lembrar do que me tocou tão fortemente assim, de supetão. Mas quando essa emoção se apresenta para mim novamente em imagens, aí fica fácil fácil Harold and Maude (Ensina-me a Viver. Hal Ashby, Us, 1971) é sem dúvida um dos filmes mais amados para mim. Eu o vi adolescente ainda. Nos anos 90, ele foi muito importante para mim. Mas ele não era fácil de encontrar. A trilha sonora de Cat Stevens também não estava assim disponível, e numa época em que a internet não estava aqui para permitir acessos antes impossíveis, eu andava pelas lojas procurando o CD. Até que o encontrei em uma loja em outra cidade - não lembro qual... Rio? Foi um acontecimento que dividi com Vivi, que compartilha comigo do amor pela história.


Este ano Harold and Maude reapareceu em várias circunstâncias diferentes da minha vida, e foi um reencontro importante. O DVD está à venda... Esbarrei na trilha sonora perdida aqui em casa e a levei para o carro, para ficar sempre comigo... Verônica, amiga de estudos do doc, declarou seu amor pelo filme e o trouxe para a sua escrita de memórias... E,finalmente, um sonho com Maude, que está no Degraus


Sobre o Flâneur, que Verônica também trouxe no seu diário de viagens e pesquisa, vale procurar mais sobre esse observador vagante da vida e da cidade nos escritos de Walter Benjamin : )


O amor pela vida que Maude mostrou a Harold invadiu meus dias e chegou até aqui, no Degraus, meu espaço de viagens, lembranças e declarações de amor a essas pessoas importantes na minha vida que são os personagens da ficção.


And there's a milions ways to go, you know that there are...




terça-feira, 29 de novembro de 2011

Something

Um dia eles dois apareceram em casa e eu nem sei como foi. Lembro que, se um dia eles não estavam lá, no outro eu já os cortejava, escondida da minha irmã.



Eu tinha sete anos e, numa casa de adultos, não tinha um espaço meu. Havia a sala, lugar de todos. Em ideia, porque ali predominava meu pai, em frente à televisão, fumando seus cigarros de palha fedorentos. O quarto da minha mãe era dela, espaço limpo e arrumado, nele eu não podia permanecer muito tempo. O meu quarto? Eu o dividia com a minha irmã mais velha, então meu ele não era... Assim, com a casa cheia, a vizinhança era meu reino, a bicicleta meu transporte, as horas fora da escola o meu tempo de ser.

Mas, às vezes, a casa ficava vazia... e nela, então, eu reinava.

Foi assim que me aproximei do primeiro disco dos Beatles. Como disse, eram dois. E eram da minha irmã. Na sua ausência, eles eram de ninguém... e deles eu me aproximei aos poucos.



Fui na ordem. O Álbum Vermelho, com aqueles quatro esquisitos na capa, eu segui por lados e faixas. O primeiro disco, lado A. O primeiro disco, lado B... e assim, foi, até chegar a Yellow Submarine, a última  do bolachão. No que tinha de linear nas faixas, esse caminho teve de fragmentário no tempo eu que eu o ouvi. Com sete anos, minha favorita era Michelle e, nessa idade, minha irmã ainda achava graça de chegar em casa e encontrar sua irmã caçula ouvindo a faixa, over and over again. Que bonitinho.

A algumas histórias, como as vejo agora, tive resistência nesse disco. Mas essa contrariedade permaneceu, e até hoje não gosto muito de Day Tripper ou Paperback Writer...

Do Álbum Vermelho, bem mais tarde, passei ao Álbum Azul. Pude, então, entender porque as capas desses discos eram diferentes. O mesmo local, mas em cores e faces distintas. Num, o quarteto bonitinho estava assim, mesmo, bonitinho... na outra, eles se encontravam diferentes, cabeludos, mais velhos. O Álbum Vermelho e o Azul foram se tornando tão diferentes quanto Paul, John, George e Ringo nas fotos.



Foi com o Álbum Azul, também, que minha curiosidade com o que as músicas diziam se tornou mais forte. Junto com um dicionário  inglês/português que encontrei pela casa, pude, aos poucos, desvendar o quebra-cabeças das palavras desconhecidas para a narrativa que as letras traziam.

Aos poucos, também, busquei saber mais sobre quem havia escrito e cantava as músicas que ouvia. Com dez anos, deparei-me com a morte absurda de John Lennon, um dos cabeludos da capa. E descobri, assim, que ele era muito mais que uma foto na contracapa de um álbum. Também soube que eles haviam se separado em 1970, ano em que nasci. A cada faixa que eu passava no Álbum Azul, mais de sua história se desvendava para mim.

Mais músicas faziam sentido, enquanto outras pareciam muito bizarras. Muito, muito bizarras. Mas eu continuava pelas faixas, sem pular nenhuma, num caminho de conhecimento e amadurecimento precioso.

Eu achava que estava no caminho contínuo, mas me enganei. Os discos haviam sido trocados em suas capas... e foi assim que cheguei ao lado A do segundo disco após já haver me dirigido, Acros the Universe, em direção a onde nascia o sol. Turururu.

E, assim, a maior surpresa estava por vir. Em fotografias de memória, vejo-me em casa, sozinha, na penumbra de um quarto que deixava o sol lá fora. Minha mão pegou a agulha do toca discos e a colocou na próxima faixa inédita para mim. E o mundo parou. 

Os primeiros sons de While My Guitar Gently Weeps me circularam como um ar brilhante. Paralisada, sabia que ali estava algo diferente de tudo que há havia ouvido. Que já havia sentido. Que já havia percebido. Que era uma guitarra perfeita, eu não sabia. Que George Harrison viria a ser meu Beatle favorito,eu nem imaginava. George who? 

A única coisa que eu sabia é que o mundo tinha de ser assim, como eu me sentia naquele momento.

Depois, o mundo se expandiu para além dos Álbuns Vermelho e Azul da minha irmã. Num programa de rádio sábado à tarde, a que eu ouvia recolhida num mundo próprio, enquanto esperava na fila para lavar o carro, vi que ele realmente ia muito além da seleção que ouvi nos dois discos. Outras histórias, momentos e, agora, CDs fizeram parte de mim. Os Beatles, eu vi então, eram mais do que eu imaginava aos doze anos. E esse mais compôs boa parte da minha visão de mundo.

Mas While my Guitar Gently Weeps permaneceu e permanece, num instante único, cristalizado no meu coração, como um refúgio especial no começo do mundo. 



Há dez anos, George Harrison voltava para casa. Sempre que penso nele, volta, para mim, o momento em que percebi o que uma música poderia significar para mim - com While My Guitar Gently Weeps. A força, o brilho, a confusão e, ao mesmo tempo, a completude de sons e narrativas que parecem me colocar no mundo - e não me tirarem dele. 

Dizem que todas as histórias são autobiográficas de alguma forma. Assim é dito em relação aos fatos que conta... Mas penso que pode haver mais proximidade aos fatos na ficção que num relato factual de acontecimentos passados. Tentei mesclar os dois nesta história, para contar da minha saudade de uma pessoa e músico incríveis. 

PS: Eu realmente não desisto. E por mais que ame George Harrison, há uma música dele que não suporto por nada no mundo e chega a me dar enjoo quando escuto... e ela é justamente Something. Para fazer justiça ao que ela represente na história de GH, eu a trouxe no título.

PS2: Os Degraus de Amèlie seguia com a apresentação de histórias que fazem parte de uma trilogia. Assim são os dois posts anteriores a este... falta ainda uma parte dessa tríade, que deve ser apresentada, espero, por esses dias...